Você se lembra das manhãs em que saía de casa cedo, do trânsito, do almoço apressado e das mensagens de trabalho que continuavam chegando depois do expediente. Havia metas difíceis, cobranças e pessoas com quem nem sempre era fácil trabalhar. Em muitos momentos, você pensou que gostaria de ter uma vida mais tranquila.
Hoje, morando em outro país, essa tranquilidade pode ter chegado. Mesmo assim, às vezes você sente falta da vida profissional que tinha no Brasil.
Quando conta isso aos amigos, a resposta costuma vir depressa: “Mas você não vivia reclamando?”. Quem continua naquela rotina talvez esteja exausto e veja a sua vida atual como um privilégio. Você entende a reação deles. Só não consegue explicar por que, depois da conversa, se sente ainda mais sozinha.
O que existia no meio da correria
Você não esqueceu os dias ruins. Mas eles não eram tudo o que havia ali.
No trabalho, você lidava com problemas que sabia resolver. Tinha colegas difíceis, mas também aqueles com quem trocava ideias, aprendia e construía alguma coisa em parceria. Às vezes surgia uma solução nova, uma meta alcançada, o reconhecimento por uma entrega bem feita. Seu esforço tinha um resultado que outras pessoas conseguiam ver.
Havia também o salário, as decisões que você podia tomar com o próprio dinheiro, as conversas no café, a sensação de acompanhar o que acontecia na sua área. Mesmo nos dias cansativos, você encontrava oportunidades de usar sua experiência e perceber que era competente.
É possível sentir falta dessas partes sem desejar de volta as horas extras, a pressão ou o trânsito. Quando alguém resume sua antiga vida a uma rotina estressante, tudo o que ela também oferecia fica fora da conversa.
“Eu deveria estar satisfeita. Por que sinto essa falta?”
Essa pergunta aparece especialmente quando a mudança de país trouxe coisas boas. Sua família pode estar mais segura. Você pode ter mais tempo em casa ou viver em uma cidade de que gosta. Ao mesmo tempo, uma parte importante do seu cotidiano profissional deixou de existir.
As duas experiências cabem na mesma história. Gostar da vida que você tem hoje não obriga você a negar o que perdeu com a mudança.
Pesquisas sobre a trajetória profissional de mulheres migrantes ajudam a entender por que essa falta pode ser tão intensa. Em um estudo qualitativo com mulheres que chegaram ao Canadá na condição de dependentes, Rastogi e Audet (2018) investigaram como elas desenvolviam sua identidade de carreira antes e depois da migração. Em outra pesquisa, baseada em entrevistas com 31 mulheres qualificadas do Sri Lanka que migraram para a Austrália, Gunasekera e colegas (2025) examinaram as dificuldades de conciliar a experiência profissional anterior com as oportunidades encontradas no novo país. São estudos com grupos e contextos específicos, mas ambos mostram por que uma mudança na carreira pode afetar também a forma como uma mulher se reconhece.
Essa ligação entre migração e identidade profissional está desenvolvida em outro texto do blog: Como a migração mexe com a identidade profissional. Aqui, quero olhar mais de perto para um sentimento que costuma ser difícil de contar: a saudade de uma vida da qual você também quis sair.
Talvez você sinta falta de coisas diferentes em dias diferentes
Em um dia, é a falta das conversas com os colegas. Em outro, é a falta do dinheiro que entrava na sua conta. Pode ser a vontade de participar de um projeto, de ser consultada por alguém que confia no seu julgamento ou de terminar a semana sabendo o que conseguiu fazer.
Perceber essas diferenças ajuda a dar nome à saudade. “Sinto falta da minha carreira” pode reunir necessidades que hoje têm pouco espaço: convivência, autonomia, aprendizado, reconhecimento, desafio ou continuidade profissional.
Nenhuma delas se resolve necessariamente com a volta ao mesmo emprego. Retornar ao ambiente corporativo poderia trazer de volta também os aspectos que a desgastavam. Por outro lado, dizer a si mesma que não deveria sentir falta de nada não faz essas necessidades desaparecerem.
Você pode começar observando o que aparece quando a saudade vem. De quem ou de quê se lembrou naquele momento? O que estava acontecendo no seu dia? Você queria trabalhar de novo naquela função ou queria ter mais oportunidades de usar o que sabe? Há alguma forma de recuperar parte dessa experiência na vida que está construindo agora?
Não são perguntas para pressionar uma decisão imediata. Elas ajudam a distinguir o desejo de retomar uma carreira da necessidade de ter mais autonomia, trocas e reconhecimento no presente.
Quando a saudade encontra pouco espaço para ser dita
Há uma solidão particular em ouvir que a sua vida atual é boa e sentir que, por isso, não pode falar das partes que ficaram para trás. Aos poucos, você pode passar a corrigir o que sente antes mesmo de terminar a frase: “Eu sei que deveria agradecer, mas…”.
Você pode agradecer pelo que conquistou e ainda sentir falta de reuniões, projetos, colegas e da pessoa que era naquele ambiente. Essa saudade merece ser escutada com a história inteira: os dias de exaustão, as conquistas, as relações e tudo o que mudou depois da migração.
Talvez você não queira recuperar aquela vida. Mas pode querer compreender o que havia nela que continua importante para você. A partir daí, fica mais fácil pensar no espaço que essas partes podem ocupar hoje.
Se tem sido difícil entender essa saudade ou conversar sobre ela sem se sentir julgada, a terapia pode oferecer um espaço para olhar para o que você perdeu, o que deseja preservar e o que quer construir daqui para a frente. Conheça meu atendimento online para brasileiras que vivem no exterior.
Referências
- Rastogi, D., & Audet, C. (2018). A qualitative exploration of career identity development among “dependent” immigrant women: Preliminary findings. Canadian Journal of Career Development, 17(2), 106–112.
- Gunasekera, G., Fernando, M., & Reveley, J. (2025). Lamentable letting go: Emotional detachment identity work by Sri Lankan skilled immigrant women in Australia. Journal of International Migration and Integration, 26, 1807–1832.

