Como a migração mexe com a identidade profissional

Muitas de nós crescemos acreditando que precisaríamos ser financeiramente independentes e que, para isso, deveríamos estudar, trabalhar e construir uma carreira. E esse acaba sendo um dos temas centrais trabalhados em terapia.

Você também cresceu pensando assim? Vejo uma grande semelhança entre a minha história e a de várias mulheres que moram no exterior e que eu acompanho em terapia.

Eu, por exemplo, comecei a estagiar nos primeiros anos da faculdade de Psicologia e, desde então, não parei mais de trabalhar. Naquela época, um dos meus objetivos era ocupar um cargo de gestão, o que acabou se concretizando após anos de muita dedicação ao trabalho.

Muitas das minhas clientes também contam que começaram a trabalhar muito jovens, algumas antes mesmo de entrar na faculdade e que já estavam com o lado profissional mais tranquilo quando foram viver em outro país.

De um jeito ou de outro, é comum ver histórias de mulheres que construíram uma carreira sólida no Brasil antes de mudarem de país. Adquiriram conhecimento, ocuparam diferentes posições, desenvolveram competências e conquistaram a própria independência financeira. E, com o passar dos anos, o trabalho passou a fazer parte não apenas da rotina, mas também da maneira como se enxergavam e se apresentavam para o mundo.

Então veio a migração.

Para algumas, mudar de país representou uma escolha profissional. Para outras, uma decisão familiar ou a oportunidade de acompanhar o cônjuge. Também há quem tenha migrado em busca de segurança, qualidade de vida, novas experiências ou melhores possibilidades para os filhos.

Independentemente da motivação, uma mudança internacional costuma mexer com várias dimensões da nossa identidade. E a identidade profissional, muitas vezes, é uma das mais afetadas.

A profissão também responde à pergunta “quem sou eu?”

A identidade não é formada por uma única característica. Somos mulheres, mães, filhas, amigas, companheiras, profissionais, brasileiras, migrantes e tantas outras coisas ao mesmo tempo.

Essas diferentes dimensões se relacionam e vão ganhando mais ou menos espaço de acordo com a fase da vida e com o contexto em que estamos inseridas. Em outras palavras, a identidade não é algo completamente fixo. Ela é construída e reconstruída por meio das nossas experiências, relações e dos lugares sociais que ocupamos.

A identidade profissional faz parte desse conjunto. Ela envolve a forma como percebemos nossas competências, valores, conhecimentos e experiências e também como somos reconhecidas pelas outras pessoas dentro de um determinado meio profissional.

Não se trata apenas de ter um emprego ou receber um salário. O trabalho pode representar autonomia, pertencimento, reconhecimento, rotina, convivência social, desenvolvimento e a sensação de estar contribuindo com alguma coisa.

Por isso, quando perdemos essa parte de quem somos, percebemos que a profissão ocupava um espaço muito maior do que parecia.

Crescemos considerando normal ter um trabalho e o próprio salário. Trabalhar parecia apenas a rota esperada da vida adulta ou uma maneira de alcançar melhores condições. Entretanto, quando essa dimensão desaparece ou é interrompida, entendemos que ela também sustentava parte da nossa autoestima e da nossa percepção de competência.

O trabalho pode ser uma parte da vida que fazemos por nós mesmas. No meio de um processo migratório em que muitas decisões giram em torno da família, da adaptação dos filhos e do trabalho do cônjuge, ele representa algo que podemos chamar de “meu”.

É fruto da própria competência, uma produção pessoal, um espaço de expressão e uma forma de se sentir auto eficaz e produtiva.

Na Psicologia, a autoeficácia se refere à crença que temos em nossa capacidade de organizar ações e lidar com os desafios necessários para alcançar determinados objetivos. Quando uma mulher passa muito tempo sem conseguir utilizar suas competências ou quando recebe sucessivas negativas, essa percepção pode ser abalada. Aos poucos, ela pode começar a duvidar não apenas das suas possibilidades no novo país, mas da própria capacidade.

Quando a mudança acontece para acompanhar o cônjuge

Quando a família muda de país motivada pelo trabalho do marido, é comum que a mulher assuma, pelo menos inicialmente, as funções de cuidado e organização da vida familiar.

É ela quem pesquisa a escola, acompanha as crianças, agenda consultas, organiza documentos, monta a casa, tenta compreender o funcionamento dos serviços e ajuda a família a se orientar em uma cultura desconhecida.

Esse trabalho é essencial para a adaptação de todos, mas costuma ser invisível e pouco reconhecido.

Enquanto o marido continua exercendo sua profissão e os filhos começam a frequentar a escola, aprender o idioma e formar vínculos, a mulher tende a se responsabilizar pelas tarefas de cuidado da família e pode ter a sensação de que todos estão progredindo, menos ela.

O marido tem colegas, metas e uma rotina profissional. Os filhos têm professores, amigos e atividades. Enquanto isso, ela pode passar grande parte do dia sozinha, tentando organizar uma vida que ainda não sente verdadeiramente como sua.

Isso não significa que cuidar da casa e dos filhos seja uma função menor. Pelo contrário: é um trabalho árduo, contínuo e indispensável. O problema aparece quando essa função não foi realmente escolhida, quando é vivida como a única opção possível ou quando o esforço envolvido não é reconhecido pela própria família.

Por essa razão, é muito importante que exista diálogo entre o casal. Quando a decisão de migrar foi tomada em família, o cuidado e o suporte oferecidos pela mulher durante os primeiros meses ou anos precisam ser compreendidos como parte do projeto familiar — e não como uma obrigação natural dela.

O salário que sustenta a casa também precisa ser visto como um recurso do casal e da família, e não como algo pertencente exclusivamente a quem está formalmente empregado. A dependência financeira pode ser especialmente dolorosa para uma mulher que sempre teve o próprio dinheiro. Além das limitações práticas, ela pode despertar vergonha, culpa, insegurança e a sensação de estar perdendo autonomia.

Valorizar o trabalho invisível, compartilhar as decisões financeiras e criar espaço para que a mulher também desenvolva seus próprios projetos são formas concretas de tornar o processo migratório mais equilibrado.

A sensação de estar começando do zero

O percurso de reencontro profissional feminino costuma exigir paciência, resiliência e muita criatividade.

Quando o cônjuge chega empregado, ele também enfrenta desafios importantes: precisa adaptar-se a colegas de diferentes culturas, entender um novo sistema de trabalho, conhecer outra legislação e, muitas vezes, trabalhar em um idioma que não é o seu.

Para a mulher que chega sem emprego, entretanto, o percurso pode parecer uma partida quase do zero.

Em muitos casos, é preciso aprender um novo idioma, revalidar o diploma, compreender os códigos sociais, descobrir como elaborar um currículo, inserir-se em novos grupos, construir networking e entrar em um mercado no qual ninguém a conhece.

As instituições em que ela estudou podem não ser conhecidas. As empresas em que trabalhou talvez não tenham o mesmo peso no país atual. As referências profissionais ficaram no Brasil e até as formas de demonstrar segurança, iniciativa e competência podem ser interpretadas de maneira diferente em outra cultura.

E isso não quer dizer que suas competências tenham deixado de existir, e sim o contexto no qual elas eram reconhecidas e todo um histórico construído.

Perceber e entender essa diferença é importante. Muitas mulheres interpretam a dificuldade de inserção profissional como uma prova de que não são suficientemente boas. Entretanto, frequentemente o problema não está na falta de capacidade, e sim na dificuldade de traduzir experiências construídas em um sistema para outro que utiliza códigos e critérios diferentes.

Há, inclusive algumas pesquisas sobre a desqualificação profissional ou deskilling, no qual pessoas migrantes passam a trabalhar em funções abaixo do seu nível de formação e experiência. Mulheres migrantes estão particularmente expostas ao subemprego e à desempenharem atividades em que são menos valorizadas. Um estudo multinacional sobre mulheres migrantes altamente qualificadas também mostra como a dificuldade de manter a identidade profissional pode afetar a integração no novo contexto. (Ruiz et al., 2025; Verderber, 2024)

Por isso, começar em um cargo inicial pode ser emocionalmente muito difícil. Não somente pelo salário ou pelo título, mas porque aquela posição parece não representar tudo o que foi construído anteriormente.

A sensação é a de ter que trilhar novamente um caminho inteiro justamente na fase da vida em que essa mulher imaginava que poderia desfrutar dos frutos plantados e regados durante tantos anos.

O luto pela carreira que ficou

Nem toda perda migratória é concreta ou definitiva. Às vezes, a profissão continua existindo no país de origem, assim como os diplomas, as experiências e as competências, mas ainda não encontra lugar no país de destino.

É uma perda difícil de nomear porque aquilo que foi construído não desapareceu completamente, mas também não pode ser acessado da mesma maneira.

Podemos compreender essa experiência a partir do conceito de perda ambígua: uma perda na qual não existe um encerramento claro. A carreira anterior continua fazendo parte de quem a mulher é, mas o reconhecimento, a posição, a rede de contatos e a rotina profissional já não estão disponíveis como antes.

Pode haver um verdadeiro processo de luto pela profissional que ela era e pela trajetória que imaginava continuar construindo.

Esse luto pode envolver tristeza, raiva, frustração, sensação de injustiça e comparação com pessoas que permaneceram no Brasil. Ao acompanhar antigos colegas avançando na carreira, recebendo promoções ou consolidando seus negócios, ela pode sentir que ficou para trás.

É importante reconhecer essa dor sem transformá-la em ingratidão. Sentir falta da carreira não significa que a mudança foi um erro, que a pessoa não valoriza a família ou que não reconhece os benefícios da vida no exterior.

Podemos estar satisfeitas com algumas partes da migração e, ao mesmo tempo, sofrer por outras. Sentimentos aparentemente contraditórios podem coexistir.

Aculturação e estresse aculturativo

Migrar não envolve apenas aprender regras práticas. Também exige uma revisão de referências culturais e identitárias.

O psicólogo intercultural John Berry define a aculturação como um processo de mudanças culturais e psicológicas que ocorre quando pessoas e grupos de diferentes culturas entram em contato. Essa adaptação envolve negociar o que desejamos preservar da cultura de origem e como nos relacionamos com a cultura do país em que vivemos. (Berry, 1997; Schwartz et al., 2010)

Esse processo pode gerar estresse aculturativo, ou seja, o desgaste emocional relacionado à necessidade constante de compreender novos códigos, comunicar-se em outro idioma, rever hábitos e lidar com a sensação de não pertencer completamente.

No campo profissional, isso aparece de várias maneiras: na insegurança durante uma entrevista, no medo de cometer erros no idioma, na dificuldade de interpretar a comunicação indireta, na dúvida sobre como demonstrar competência e até na sensação de que a nossa personalidade muda quando falamos outra língua.

Uma mulher que era comunicativa, segura e espontânea em português pode se perceber mais retraída no novo idioma. Ela sabe o que gostaria de dizer, mas talvez não consiga expressar todas as nuances do seu pensamento. Com isso, pode acreditar que se tornou menos interessante ou menos competente.

O que não é verdade e seria uma injustiça de afirmar. O que ainda está em desenvolvimento é a capacidade de demonstrá-la dentro de um novo sistema linguístico e cultural.

Quando o profissional ocupa todo o campo de visão

Diante dessas dificuldades, é muito fácil reduzir a vida ao aspecto profissional.

Uma entrevista que não resulta em contratação, uma dificuldade com o idioma ou um emprego abaixo da qualificação podem ser interpretados como evidências de fracasso pessoal. Sentimentos de solidão, inutilidade, ineficiência e baixa autoeficácia começam a ganhar espaço.

E é aí que mora o perigo, pois corre o risco desta mulher deixar de pensar “ainda não encontrei meu lugar profissional neste contexto” e passa a pensar “não sou boa o suficiente”.

Essa diferença parece pequena, mas é fundamental!

A primeira frase descreve um processo que ainda está acontecendo. A segunda transforma uma dificuldade contextual em uma definição sobre quem a pessoa é.

Também é comum comparar os resultados atuais com aquilo que seria possível realizar no Brasil. Preencher um formulário, telefonar para uma empresa, fazer uma apresentação ou participar de uma entrevista talvez fossem tarefas simples no Brasil. No novo país, porém, essas mesmas ações exigem preparação, coragem e energia. E usar a régua antiga para medir uma vida construída em circunstâncias completamente diferentes quase sempre produz uma avaliação injusta.

Reconstruir não significa apagar o que veio antes

O reencontro profissional não precisa significar voltar exatamente ao mesmo lugar ocupado no Brasil.

Para algumas mulheres, o caminho será a revalidação do diploma, aprender um novo idioma e a retomada da profissão. Para outras, será uma formação complementar, uma mudança de área, um trabalho autônomo ou uma combinação entre experiências anteriores e competências desenvolvidas depois da migração.

A reconstrução profissional pode envolver continuidade, mas também transformação.

Isso não significa romantizar as dificuldades e nem dizer que tudo acontece por uma razão. Existem barreiras reais, como discriminação, falta de reconhecimento dos diplomas, exigência linguística, ausência de rede de apoio, responsabilidades de cuidado e regras migratórias.

Mas ao mesmo tempo, é possível reconhecer que a experiência migratória também desenvolve competências. Aprender outro idioma, transitar entre culturas, tolerar incertezas, pedir ajuda, reconstruir redes, compreender diferentes perspectivas e adaptar a comunicação são habilidades importantes dentro e fora do trabalho.

Eu sei que talvez você ainda não consiga enxergá-las porque você está no meio de um processo que parece estar patinando, mas nem por isso são menos reais.

Reconstruir a identidade profissional não significa jogar fora a história anterior e começar como uma folha em branco. Significa integrar quem você era, quem precisou se tornar durante a migração e quem ainda deseja ser.

Valorize os seus pequenos grandes passos

Por isso, é importante lembrar como foi o seu processo migratório, quais desafios precisou enfrentar e quais novas competências adquiriu.

Tente não reduzir tudo o que você já fez até aqui.

Pode ser que os resultados conquistados no novo país, em um primeiro momento, não pareçam tão grandes ou complexos. Talvez você pense que no Brasil seria muito fácil. Mas é preciso colocá-los em outra perspectiva.

Você está construindo uma vida inteira em um novo contexto, dentro de outro sistema, com códigos sociais e culturais diferentes, muitas vezes em um novo idioma e sem a rede de apoio que levou anos para construir.

A leitura de mundo aprendida durante a infância, a adolescência e parte da vida adulta está sendo revisitada e remodelada. Isso demanda tempo e uma quantidade enorme de energia psíquica.

Talvez hoje o seu avanço seja conseguir conversar em outro idioma, enviar um currículo, iniciar uma formação ou explicar sua profissão para alguém. Talvez seja aceitar temporariamente uma função diferente, criar um projeto próprio ou simplesmente começar a imaginar novamente um futuro profissional.

Esses passos não precisam ser idealizados, mas merecem ser reconhecidos.

Você não deixou de ser a profissional que era porque ainda não encontrou espaço para exercer tudo o que sabe. Sua trajetória não foi apagada pela fronteira. Ela continua em você: na forma como pensa, resolve problemas, se relaciona, aprende e constrói novos caminhos.

Seu valor também não depende exclusivamente da função profissional que ocupa neste momento.

Lembre-se! Você não está começando do zero, mas de um lugar novo, levando consigo tudo o que viveu, aprendeu e construiu até aqui.

Então valorize a sua história — inclusive os pequenos grandes passos que tem dado.

Referências

  • Berry, J. W. (1997). Immigration, acculturation, and adaptation. Applied Psychology, 46(1), 5–34.
  • Ruiz, M. et al. (2025). Women migrant workers’ deskilling. European Economic and Social Committee.
  • Schwartz, S. J. et al. (2010). Rethinking the concept of acculturation: implications for theory and research. American Psychologist, 65(4), 237–251.
  • Verderber, S. (2024). The professional identity of highly educated migrant women: a multinational study of migration processes from a gender and educational perspective. European Social Work Research.

Olá mulher intercultural, seja bem-vinda!

Sou a Laise Kasaoka,

Psicóloga Intercultural.

Aqui você encontrará conteúdos pensados com carinho, baseados em estudos científicos, nas minhas experiências e de outras mulheres que também moram no exterior para te ajudar nessa caminhada mundo a fora!

Newsletter

Se inscreva gratuitamente

Receba conteúdos especiais sobre o turbilhão de emoções e sentimentos envolvidos na experiência de morar no exterior, pensados especialmente para te ajudar a se adaptar em outro país.